terça-feira, 1 de março de 2011

"Eu tenho mais de vinte anos"

Eu ainda, e ainda morta

Quando foi que me matei?
Quando foi que morri?
Em que noite de lua,
Sobre qual pedra
Meu filho foi assassinado?

Quando foi que virei personagem?

Será que eu nunca fui real?

Por que pergunto tanto?
Por que choro tanto?

Quem sou eu?

De novo e de novo
A mesma pergunta
E sempre a dor da culpa

Quando, quando saberei
Que posso parar de sofrer?

Não aguento mais chorar...
E a culpa me domina por inteiro.

Não sei quem sou.
Não sei a que vim.
Tenho ideia nenhuma de pra onde vou.

Eu continuo não gostando de mim.

(Mas não quero mais chorar.
Um dia, um dia,
Estas lágrimas tem de secar)

[Hoje papai foi me ver.
E naqueles olhos verdes,
Naquelas eternas rugas de sorriso
Que sempre existiram
Nos cantinhos daqueles olhos verdes
Eu olhei
E me vi
E sem saber se ele me escutava
E rezando para que ele não escutasse
Pedi socorro
Enquanto fingia que tudo estava bem
E que eu estava no controle
De tudo]


As lágrimas prosseguem.
É tão estranho
Chorar assim
Enquanto penso
Enquanto raciocino
Enquanto deixo eu sentir pena de mim

Eu sou nada
Eu continuo a ser nada

Mas ainda sinto minha falta
Sem sequer ter me conhecido

Eu nunca soube por que existo
Eu nunca tive motivo suficiente
Para continuar

Eu só prossigo
Por responsabilidade
Por obrigação

Mas no fundinho
Acredito
Que deve haver um motivo bom