terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cênico

A arte de enganar
Executada com maestria

Com alegria o artista domina a platéia
Olha o público manso
Ávido de ilusões
E então atinge a supremacia

Que dia! Que dia!
Que perfeição de gestos, de falas!
Quanto mais prazer desperta
Mais o prazer o arrebata

E ele ali – supremo

Lindo ver o artista
Tão entranhado em seu papel
Que se substancia
Abre seu dossel
E se oferece

E a platéia agradece e se delicia

E ao fechar das cortinas
Resta a certeza
De que ainda a vida é vazia
Para o artista
Para a platéia
Para aqueles em que o amor ardia

sábado, 24 de outubro de 2009

Constatação



Tu me sabias tão só e não vieste.
(Nem sei por que eu te esperei.)
Talvez a recordação de uma madrugada antiga.
Talvez...

Esperei por ti e por um gesto
Quando o sol sumiu e o horizonte também.
E, quando brilhou a primeira estrela,
Adormeci.

Despertei e te vi ali tão perto.
Não entendi por que não me olhavas.
Mas percebi com a lua que era somente tua imagem
Que se apagava.

Tu me sabias tão carente e não me abraçaste.
(Nem sei por que eu chorei tanto.)
Talvez a lembrança de um dia distante.
Talvez...

Esperei por ti e por uma palavra
Quando a lua se escondeu e a esperança também.
E, quando se apagou a última estrela,
Entendi.

Solucei e te vi ali tão longe.
Não questionei por que tu não estavas.
Mas percebi com o dia que era somente meu passado
Que se findava.

Todo sentimento - Chico Buarque




Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente


Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente


Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez


Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente


Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente


Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tanto mar e riso

Nas águas turvas
Nos torvelinhos
Redemoinhamos em nossos risos

Eu na curva doce
Você nas pretas águas
E na real virtualidade
Brasileiramos

Doçuras, doçuras...
Travessuras do encontro afoito
Afeitos aos desejos
Sugados
Retidos
Desfiando nos dedos a carne do re-conhecer
No outro o oposto do mesmo

Acaso?
Abismo?

Solfejos

E o sol brilha mais intensamente nesta madrugada chuvosa

Marejando os olhos e molhando os lábios
E arrepiando completamente
As páginas em branco que ainda restam
Mas que se multiplicam à espera dessa história

Que graça!
Tanta delícia no descobrir diferenças
Que a raça íntima se revigora

E deixemos os dois poetas
Abstraindo-se em suas concretudes
Pra na quietude de suas palavras
Soltarem o grito dessa vitória

E no eco de suas gargalhadas
Despertar esse mundo novo

E assim
Completar o ciclo
Que jamais se encerra

Pra rodopiar a vida e despistar a morte

Que sorte!